quinta-feira, 12 de abril de 2012


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 PASSAGENS DA LUTA DE UM POVO  
                                                                                   
                                                                                     Crônica de Gladis Krimberg 
   
 


    O que nos leva a recordar antigas histórias familiares é a comemoração dos 100 anos da imigração (oficial)  judaica no Rio Grande do Sul.
    O conteúdo emocional destas histórias nos motiva a relatar algumas passagens românticas e pitorescas sobre fatos e pessoas que, por circunstâncias, as mais distintas, acabaram por emigrar para o Brasil. A maturidade nos torna receptivas e estimula a valorização de experiências dos nossos antepassados, o que não ocorria quando éramos jovens, com a inerente inquietação da adolescência. É o resgate dos sentimentos existentes naquela época, que devem ser repassados às novas gerações.
    São histórias ricas de ternura, de amor, de comprometimento familiar e de muito sacrifício!
    Para se ter idéia sobre o início do movimento hoje comemorado, devemos nos reportar ao século passado, antes mesmo de Philippson, marco oficial desta era imigratória.  Através de relatos familiares, confirmados em publicações sobre o mesmo tema, tomamos conhecimento da existência de jovens judeus alsacianos e de outras regiões francesas em nosso estado antes de 1904.  A vinda destes jovens coincide com a Guerra Franco-Prussiana (1870-71), quando a França, vencida, entrega à Alemanha, a região da Alsácia e parte da Lorena. Nesses momentos de guerra, a vida dos judeus torna-se insustentável na Europa, devido ao anti-semitismo crescente e comprovado na França pelo caso Dreyffus.                                    
    Foi nessa época que um grande número de jovens alsacianos começou a chegar à América do Sul. Muitos dirigindo-se para São Paulo, Rio de Janeiro e norte do Brasil, porém centenas deles vindo para o sul; alguns ficaram em Porto Alegre e outros tantos seguiram para o Uruguai e Argentina.
    Eram, na maioria, rapazes solteiros, fugidos da guerra franco-prussiana, empregados de firmas francesas exportadoras ou trabalhando para algum negociante de jóias ,que vinham para o Brasil em busca do sonho de uma vida estável no Novo Mundo. Muitos vieram como comerciantes, embarcando em navios cargueiros que partiam dos portos de Bordeaux e  Le Havre rumo à América.
    Em Porto Alegre estes judeus alsacianos, franceses e alguns austríacos chegavam sem conhecer ninguém, quase sempre escondendo sua descendência judaica, aos poucos se assimilando ao casarem com moças cristãs, na igreja católica ou protestante,.Seus descendentes são hoje católicos e protestantes. Os que aqui ficaram eram, na maioria, ourives e joalheiros.
Nesta mesma época chegaram a nossa cidade as famílias de Salomão Levy e Salomão Barros, judeus portugueses de ascendência marroquina, que não escondiam sua religião e por isso eram procurados muitas vezes por aqueles judeus já assimilados em nossa sociedade, para poderem recordar
livremente a ascendência judaica.  Tanto é que, alguns deles , antes de morrer recomendaram a suas famílias que lhes mandassem fazer um enterro de acordo com o ritual judaico, pois  já existia na capital uma pequena comunidade. Esta atendia sempre tais pedidos quando lhe eram solicitados, apesar de se tratar de pessoas que não se tinham ligado a ela, mas eram judeus.
    Mas é na virada do século que a Jewish Colonization Association (ICA) compra no Estado do Rio Grande do Sul uma propriedade no município de Santa Maria, para instalar  a primeira colônia de imigrantes judeus no Brasil, que recebeu o nome do então vice-presidente da ICA, ou seja, Colônia  Philippson.  
     Em 1904 chegou a primeira leva de imigrantes formada por 37 famílias vindas da Bessarábia para serem agricultores no Brasil. O período inicial da vida desses colonos é rica em histórias tristes e alegres, duras e engraçadas, todas elas traduzindo a força de vontade de vencer num país onde seus filhos pudessem crescer livres do anti-semitismo, para tornarem-se cidadãos respeitados!
    Mal instalados, já trataram de abrir uma sinagoga e um cemitério e de organizar sua vida social, familiar e religiosa.
    A religião era importante e o imigrante Abrahão Steinbruch foi o primeiro chefe religioso, pois oficiava os cultos, algumas vezes fazendo também o papel de "Schochet" e outras tantas de "Mohel".
    Crianças,  havia muitas... e para ensinar português a elas a ICA contratou  o jovem Prof. Léon Back , "sub-diretor da École Horticole et Profissionnelle du Plessis-Piquet nos arredores de Paris, enviou-o por alguns meses à Lisboa para aprender o português e, depois, a Philippson, onde chegou em 5/6/1908 e instalou logo uma escola mista. Os alunos foram todos registrados na escola com seus nomes traduzidos e aportuguesados, influência esta advinda do professor. Assim, as "Mindl" transformaram-se em Manuelas  e os "Moiches" em Miguel ou Manuel. E todos conservaram para sempres os prenomes recebidos na escola de Philippson. Muitos alunos moravam em lotes distantes da escola e eram obrigados a percorrer a pé quilômetros e quilômetros para poderem aprender!  Levavam de casa uma marmita com comida , pois só conseguiam retornar  quando já era noite.         
    Outra curiosidade: entre os imigrantes estava Boris Wladimirsky. Ele era o "Feltcher", como se dizia na Bessarábia, uma espécie de médico (prático-licenciado) que atendia todos colonos, com exceção dos casos mais graves, quando  então os encaminhava para Santa Maria. Contam , que sua figura imponente, montada num grande cavalo branco, era respeitada e considerada por todos os habitantes da região.
    Outro aspecto curioso era o costume entre os judeus de casarem somente no religioso. Transcorrido algum tempo da chegada destes pioneiros, a administração da ICA tomou para si a iniciativa de realizar um casamento civil coletivo. Para tanto providenciou a vinda de um juiz de paz de São Martinho, município próximo de Philippson, que uniu mais de 20 casais pela Lei dos Homens. Para este evento a administração ofereceu um churrasco, ao qual compareceu a maioria dos colonos.
    Philippson foi uma etapa difícil para os imigrantes. Trabalharam arduamente uma terra árida e desconhecida que não frutificou como o esperado. Mas, a esperança os encorajava a continuar lutando contra todas as adversidades, levados pelo sentimento de sobrevivência em um país livre.
    E o tempo passou... E Philippson foi se despovoando...
    Alguns foram viver em Santa Maria, outros em Cruz Alta, Rio Grande, Pelotas e outras cidades do interior onde se tornaram, na maioria, comerciantes.
    Mas as gerações se sucederam. E os filhos estudaram e se tornaram "doutores" na capital. Todos com o mesmo passado, todos almejando o mesmo futuro!
    Cabe a nós a responsabilidade de preservar este patrimônio valioso, enriquecendo-o com nossa próprias experiências e transmitindo-o aos nossos descendentes. São movimentos importantes como este, do resgate da memória, que reforçam a intenção de manter viva a riqueza de nossas origens!

         

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